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1 de dezembro de 2013

Sementes que saciam


São sempre felizes os dias em que o poeta semeia a palavra que germina: o verbo que alimenta e sacia.
Foi assim, ontem, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.
E eu, orgulhosamente, estive lá!


Uma certa luz

Há dias em que os corações
amanhecem abertos à claridade.
Então, são inúteis as palavras
porque a luz é vidro e corta
gume ou fio de sol
desejoso de ser noite.

Lídia Borges, Sementes Daqui, Poética Edições (Nov. 2013)



24 de abril de 2013

Sementes e searas





 Aconteceu, ontem, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, a entrega do Prémio Literário Maria Ondina Braga. 

A vencedora foi Olívia Marques, com o trabalho poético "Sementes daqui.  O júri, presidido pelo professor Agostinho Rodrigues, fundamentou a sua decisão - tomada por unanimidade de entre 57 trabalhos a concurso -  referindo- se à obra como: "uma estrutura formal coesa e sistemática e com uma riqueza imagética e simbólica ímpares", realçando ainda  "a experiência de grande sensibilidade cultural"  expressa. 

Para quem conhece a escrita de Olívia Marques e   acompanha a publicação de alguns dos seus trabalhos em Searas de Versos,   este prémio não surpreende, porque é o reconhecimento justo da enorme qualidade literária do que escreve.  Para mim, que sou simultaneamente sua leitora e amiga, este é, também, um momento de imenso orgulho e felicidade.  

PARABÉNS!!!


" Pilgrim, in your journey
You may travel far, "






6 de julho de 2012

Procura-se um Amigo



Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinícius de Moraes



27 de março de 2012

Nuvens pesadas



« Nuvens pesadas suspensas sobre muitos homens não os deixam pensar.
Ainda que ergam a cabeça, estão isentos de ideias, de contrições e de amor.

É uma formula: um homem dedica o seu dia à escuridão do gesto, submete o corpo aos instintos mais pesados, toma banho de pijama, não olha pela janela nem atravessa pontes.

E o resultado: um dia de chumbo em excesso para o somatório de cicatrizes,
um nível abaixo do penteado.

A liberdade é, nestes casos, o maior desperdício de um homem-livro, uma tirania difícil de inalar.


Dão-lhe poesia e ele escreve tempestades.»


MENDES, Sílvio (2011: p. 46), Inéditos in: Golpe d'Asa
fotografia de Carlos Gotey

11 de fevereiro de 2012

Detalhes de poesia ( Lídia Borges)





















Aquele banco de jardim, abrigado pela árvore
tem histórias p'ra contar.
Fala de pássaros, de ninhos, de meninos a brincar.

Fala de um velhinho
que reparte pelos pombos saquinhos de afeição:
migalhas da migalha à sua mesa.
São eles os seus amigos, é com eles que conversa.
Conta dos filhos ausentes, do lar, da solidão...

Depois vem o outono expulsar os passarinhos
Vem o inverno p'ra ficar eternamente...

Porém, uma manhã, de repente
os pássaros voltam a encher de vida os ninhos,
voltam os pombos, o sol e o riso dos meninos.

Mas algo se faz diferente, alguma coisa mudou.
À tarde, naquele canto sombrio, o banco jaz vazio.
O velhinho não voltou.


" Banco de  Jardim " de Lídia Borges

15 de janeiro de 2012

Detalhes de poesia (Rosário Alves)


"Studying"  
Iman  Maleki - 1998















pastoreio reflexos na desordem do solo
como pergaminhos deitados por terra
em horas corridas ao abandono

almejo adivinhar a idade do mundo
na luz interposta pelos traços de hoje
rebusco nas pausas que se abeiram da sombra
uma identidade atemporal
onde todos passeamos cumplicidades
inscritas nas mãos que apertamos com fé

alguma cadência na rotação do sol
nos há-de marcar os compassos
de uma dança universal

não busco diferenças
não procuro distâncias
sigo o trilho da cor que adivinho ser marco
do mesmo medo em todos os olhos
com laivos de esperança a faiscar dos sorrisos

em todos os corpos a mesma espera
de um abraço placenta quente e inteiro
transversal à pele à carne e aos ossos
e à memória genética que precede a existência

e eu pastoreio reflexos
arrebanhando contrastes
num vasto improvável
puzzle mental
onde as sombras se encaixam
e a luz se unifica

porque no núcleo interno
das nossas potências
sabemos
que a natureza não sustenta enganos


"reflexos" de  Rosário Alves 

18 de dezembro de 2011

Invocação a Sophia



"Dancer Adjusting Her Shoe" - Edgar  Degas - 1885


             Há sempre um deus fantástico nas casas
                            Em que eu vivo, e em volta dos meus passos
                            Eu sinto os grandes anjos cujas asas
                            Contêm todo o vento dos espaços.

Sophia de Mello Breyner Andresen, " As casas" in Obra Poética



24 de novembro de 2011

Celebração da voz humana




Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for.  Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada.

Eduardo Galeano in " O livro dos Abraços"



21 de novembro de 2011

O eco das palavras dos poetas




Hoje acordei dentro de uma nuvem cheia de palavras.

Cheia de pedaços de poesia que se soltavam da folhagem das árvores de uma floresta de papel que também existia dentro dessa nuvem. Toquei-lhes com o maior cuidado, não fossem elas, as palavras, serem como os sonhos que se esquecem quando os queremos realidade.
Mas não….
Aconchegaram-se como meninas, dentro de mim. Ou eu dentro delas, já não sei...

Quem sabe onde mora o eco das palavras dos poetas?

Juraram que se ouvissem Fantasie-Impromptu de Chopin, renasceriam como borboletas e todos os dias pela manhã, na beira da minha janela, ronronaria um gato e cantariam poemas que, sendo tão puros, simples e límpidos como água, dariam ao meu acordar, a melodia harmoniosa dos rios e das fontes e de todas as paisagens que nascem dentro dos olhos, ou flutuam na alma vindas da espuma do mar. Disseram também, que me trariam um campo de girassóis, um punhado de memórias, uma grinalda de algas ou então,  searas de versos para eu reinventar.
Hoje, quando acordei,  no livro de poesia ao meu lado; No Espanto Das Mãos - O Verbo,  da minha querida amiga Lídia Borges  as palavras aguardavam apenas os primeiros acordes do piano,  para me dizerem da nova sonoridade que semearam dentro de mim. 

À Lídia, os meus parabéns! 
A sua poesia  iniciou  um novo e merecido voo.
Muitos outros lhe desejo.
Por cada um a aplaudo, honrada pelo privilégio de a ler
e de ontem ter estado ao seu lado.


14 de fevereiro de 2011

Hoje canta o poeta...








VINICIUS DE MORAES





Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


... na sua própria voz.



8 de dezembro de 2010

Onde vive o Menino Jesus



Sempre soube que o Menino Jesus vivia dentro de cada um de nós.

O que só descobri depois, é que nem todos acreditamos verdadeiramente nisso em todos os dias do ano...


" (...)
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda. (...)"

Alberto Caeiro
( Poema do Menino Jesus )

19 de junho de 2010

a Maior Flor do Mundo




porque as flores Maiores...


jamais murcham, secam ou morrem!


28 de maio de 2010

Hoje canta o poeta...







VINICIUS DE MORAES






Eu sei que vou te amar

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que eu vou te amar
E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há-de apagar
O que essa ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida



Na voz de...
Eugénia Melo e Castro




Há selos e desafios em Mimos&Selos
passem por lá!

14 de abril de 2010

Hoje canta o poeta...








MARIA GUINOT




Silêncio e tanta gente


Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
É um grito
Que nasce em qualquer lugar
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou
Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão
Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer
Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que eu sou


... na própria voz


...porque há poemas e vozes e momentos que serão toda a vida coisas plenas!


21 de março de 2010

Hoje canta o poeta...




FERNANDO PESSOA




O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
e viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!



... na voz de Dulce Pontes


3 de janeiro de 2010

Hoje canta o poeta...




FLORBELA ESPANCA




Desejos Vãos



Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...
As árvores também, como quem reza ,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia ,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...



.... na voz de MARIZA

Ilustração de Paulo Salvador

1 de dezembro de 2009

Ser família...


Às vezes passávamos as férias na aldeia onde o meu pai nasceu e, eu gostava de ver as galinhas com os pintos às costas. Pois às costas!
Os pintos saltam para cima das "costas" das galinhas mães e chak, chak, chak aí vão eles a passear.
Nunca vi os galos, que são os maridos das galinhas e pais dos pintainhos, deixarem os filhos viajar nas suas costas! Coitadas, só as galinhas é que têm de dar toda a atenção aos bébés! São bem atrasados, os galos! Eu lembro-me de o meu pai vir buscar-me cá abaixo ao chão, agarrar-me os punhos e ... chak! sentar-me nos seus ombros! Mas, o que eu estava a criticar era o feitio conservador dos galos. E não mudam... O meu pai mudou... Era quase igual à minha mãe, só que foram sempre diferentes. Ela era a minha mãe e ele era o meu pai. Trataram de mim os dois e eu gostei.




Margarida Carpinteiro in " Um animal desconhecido" 1993 com ilustração de Juan Soutullo.


**

17 de novembro de 2009

Hoje canta o poeta...



JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS






CAVALO À SOLTA





Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
Minha espada
Poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego
Por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


... na voz de Fernando Tordo e ...na voz de Viviane


**

11 de novembro de 2009

Inspiração para um magusto


OS SIMPLES

Pela estrada, que entre cerejais ondeia,
Uma pequerrucha, Tró-la-ró-la-rá!
Vai cantando e guiando o carro para a aldeia.
Com um castanheiro apodrecido já.

Castanheiro morto! Que é da vida estranha
Que no ovário exíguo duma flor nasceu,
E criou raízes, e se fez tamanha
Que trezentos anos sobre uma montanha
Seus trezentos braços de colosso ergueu?!

Em casal de Serras arde o castanheiro
Lâmpada de pobres a fazer serão;
De redor no grande festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

Como não sentir um estranho afecto,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

Fez com ele o jugo e fez com ele o arado;
Fez com ele as portas contra os vendavais;
E com ele é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus pais!

Eis as brasas mortas... Ei-lo já converso
O castanheiro em cinza, o fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do Universo
Círculo de enigmas que ninguém traduz...

Guerra Junqueiro

**

29 de outubro de 2009

Hoje canta o poeta...



PEDRO HOMEM DE MELO







CUIDEI QUE TINHA MORRIDO




Ao passar pelo ribeiro
Onde às vezes me debruço
Fitou-me alguém corpo inteiro
Dobrado como um soluço
Pupilas negras tão lassas
Raízes iguais às minhas
Meu amor quando me enlaças
Por ventura as adivinhas
Meu amor quando me enlaças

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol de luar
Tal e qual quem ao sol posto
Estivera a agonizar
Deram-me então por conselho
Tirar de mim o sentido
Mas depois vendo-me ao espelho
Cuidei que tinha morrido

Cuidei que tinha morrido



.... na voz de Amália Rodrigues